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Era Eu

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Um dia fui criança de rosa na mão. Sorria e sonhava porque era fácil. Mais tarde descobri que a vida era esquisita,  aprendi as normas e decorei fórmulas. Não gostei! Voltei atrás pra pegar minha rosa, minhas bonecas, as bolas de gude,  os chapéus de papel e a tiara de estrelas. Depois disso nunca mais cresci - fiquei mesmo assim.

Frágeis

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Há amores que não sobrevivem ao crivo da realidade.  E reparem, quem pode culpá-los?

Violão

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De alguma maneira os acordes ainda ecoam em mim.  Talvez a vida seja diferente daquilo tudo... Espero que não. Creio nas coisas que você dizia com seu violão... Coisas de amor e saudade. De magia, irmandade, de valores. Coisas que falam de caligrafia torta, do meu sorriso inexato, do seu jeito todo seu de entender a vida - e eu.  Lembro da voz grossa, de cantar as gotas de chuva e a seca no sertão, o concreto da cidade, a saudade no violão.  Talvez você soubesse do que falava. Talvez se o meu cabelo fosse mais escuro, se eu fosse mais morena, que é bonito de cantar, tudo tivesse dado certo. Talvez não. Sei que hoje o dedilhado dessas notas que se foram arde como óleo quente, nas feridas tão abertas e eu decido relembrar. Não fechar os olhos como sempre.  Pego o violão que é meu, e lavo de lágrimas o rosto, as cordas, o braço: os acordes parcos bobos que eu sei, nem ao menos próximos do que eram os seus. "Na noite parece tudo tão lindo, não é mesmo? " É. Até...

Fada Literata

Todo dia acorda cedo; mora na biblioteca. Sabe onde fica a Cidade do Sol, a Terra do Nunca e o Morro dos Ventos Uivantes. Já visitou a Índia, a Inglaterra e a França; conhece A Sombra do Vento e as Brumas de Avalon. De manhã se espreguiça e abre inteira feito um livro, sorri como capa de revista e se desdobra igual folheto. Enche a bolsa (pequena, de couro) de letrinhas recolhidas com cuidado das estantes adormecidas. Recolhe também pedaços de palavras ou papel que estejam esquecidos - os amores não ditos enrola em novelo. As lágrimas que encontra nas mesas e pregadas aos livros guarda num frasco de cristal puro, na seção "Astronomia", onde raramente alguém mexe. Bolsa cheia e olhos vivos, parte voando pelas ruas, sobre as cabeças; derrama sonhos, desejos, inspirações, poesia, informação, letra, ritmo e melodia. A pessoa por quem ela passa raramente entende quem foi, mas resolve algo que a atormentava há dias, tem uma ótima idéia ou vontade de ler exercícios.  Ela não se i...

Escolhas

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Hoje, carrego na palma das mãos as possibilidades do meu amanhã. Cada respiração de agora é pesada, é contada como se fosse uma parte do que construí. Posso me vestir de verde, ou colocar um vestido amarelo. Posso pentear o cabelo, ou não. Posso passar maquiagem, posso estudar para a prova, posso ir bem na escola - ou não. Posso transviar minha vida, perder-me (mais uma na esquina) ou numa fumaça qualquer que encontre por aí - ou escolher que não. Posso me casar com alguém que ame, posso racionalizar o amor enquanto posso, tentar encontrar o equilíbrio entre possível e desejável, construir uma união de fatos que comece agora e dure pra sempre -  mas talvez eu não consiga. Não depende unicamente de mim, isso é provado. Mas a parte que me cabe é assustadora, tão bonita, tão enorme, e se a minha vida for um futuro livro biográfico - quem garante que escrevi essa página do jeito certo? Posso me casar jovem, ter filhos, contentar-me com a alegria simples de ser esposa e ser mãe. ...

Meio Eu

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Sou uma garota que gosta de romances. De comédias americanas água com açúcar,  onde todo  mundo faz merda o filme inteiro pra no fim dar certo. De Emily Brontë e Jane  Austen,  por  mais que  seja brega. Gosto de beijinhos na testa, e encontros com fundo musical. Gosto de dançar  desajeitada  qualquer  música, ainda que seja rock e eu dance como valsa. Amarro lenços no cabelo, amo bandanas e batom (mas eu só uso um marrom ) e nem se  esforce  em reclamar. Tenho um lado louco que se identifica com Clarice Falcão e Natalia Klein, e se você  nunca  ouviu falar  pesquise agora, afinal, quem não adora? Meu gosto musical varia igual ao humor, e às vezes digo bobagens pra quebrar o gelo,  ou dou um  sorriso de criança pra tentar te derreter. Tenho vontade de pegar meu violão  e cantar  coisas pela  rua dedicadas  à você.

Fred Astaire

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Se o mundo fosse como a gente quer Como num filme do Fred Astaire Talvez com um sapateado Ou uma dança assim qualquer O meu vestido Seria de uma cor bem forte E o seu terno azul - que sorte! Combinaria como um par Sorrindo com todos os dentes Nossa alegria simplesmente Ia iluminar o salão E a sua mão guiando a minha De algum jeito saberia  Bem onde eu queria ir Quando a lua surgisse branca Rindo da nossa agitação E de algum jeito figurado Desses que só há no cinema Seria a nossa última cena Como um retrato outonal Mesmo se fosse em preto e branco O amor ia acabar manchando A tela toda da tevê Num último "Amo Você"